Cartas das Crianças de São Tomé
Ângela Domingues
3ª Classe
Água- Isé
S.Tomé 14 de Maio de 2009
Cara amiga, antes de tudo começo a dizer-te que estou com saudades suas e agradeço-te imenso pela oportunidade que me deste em comunicar contigo acerca do meu futuro.
Estou a estudar e quando terminar os meus estudos quero ser formada em engenharia agrícola, visto que moro numa zona rica em muitos produtos da terra e minimamente tenho alguns conhecimentos acerca da agricultura de S.Tomé.
Com isso preciso de apoio de muitos, não só do meu país como também do estrangeiro.
Termino esta pequena missiva com votos de muitas saudades contando com o seu apoio.
Recebe um abraço bem forte da sua amiga.
Escola Básica de Praia-Rei em Àgua Isé
Ângela Domingas,
9 anos.
Letra e música “Heal the World” de Michael Jackson
Esta é uma das músicas com que o artista mostrou várias vezes ser um grande humanitário, sempre preocupado em ajudar os mais carenciados e em cuidar do nosso Planeta. Deixo aqui um pequeno excerto da letra da música.
There's A Place In Your Heart
And I Know That It Is Love
And This Place Could Be Much Brighter Than Tomorrow
And If You Really Try
You'll Find There's No Need To Cry
In This Place You'll Feel
There's No Hurt Or Sorrow
There Are Ways To Get There
If You Care Enough For The Living
Make A Little Space
Make A Better Place...
Heal The World
Make It A Better Place
For You And For Me
And The Entire Human Race
There Are People Dying
If You Care Enough
For The Living
Make A Better Place
For You And For Me
A escolha do título "Homem com Futuro".
17/ 03/2009
Na minha segunda visita á escola de Água Isé, numa das turmas do ensino primário, quando perguntei aos alunos o que queriam ser quando fossem maiores, um menino pôs o braço no ar, e respondeu-me: "-Homem com futuro." Sorri ao ouvi-lo. Pois fez-me lembrar o meu pai ao falar com os filhos. Veio-me à ideia a palavra esperança. As crianças estão à espera que alguém os oriente e apoie. Todos nós podemos ajudar e não basta ter só boa vontade é preciso agir. Acreditaram em mim quando lhes disse que volto para ajudar. Não estamos cá de passagem só para deixar descendência, para isso não tínhamos evoluído, não existiriam as novas tecnologias e avanços em todas as áreas da ciência. Tenho consciência que podemos fazer muito pela humanidade. O desequilíbrio social é grande. Se eu tivesse ficado em casa no meu conforto a fazer a minha pesquisa, não teria o mesmo impacto, nem conhecimento. È no contacto com o povo que se conhece a sua cultura.
Esperança
Escolhi este tema como projecto, por vários motivos, e o que mais me influenciou foram estes últimos anos do Curso Tecnológico de Acção Social que vieram despertar em mim um sonho de infância. Não são só os factos: ter nascido em África, ou as minhas raízes, acima de tudo tenho a “obrigação” como humana e cidadã do mundo, de fazer o que está ao meu alcance para garantir um futuro melhor para outras crianças, que têm dificuldades em obter simples materiais escolares. Escolhi visitar as escolas básicas, por terem necessidades mais evidentes. É uma fase do crescimento que se deve estimular e apoiar as crianças na aprendizagem para que possam ser criativos e tenham motivação para estudar e aprender.
Ponte
Ligação entre os que querem ajudar e os que necessitam. Quando comecei a falar com os amigos acerca do que queria fazer, parecia-me muitas vezes uma tarefa difícil, por não conhecer ninguém do outro lado (São Tomé), não sabia como me iam receber . Mas foi uma experiência incrível! São um povo muito acolhedor, simpático, e amistoso, têm muitas qualidades.
Quando se tem vontade movem-se montanhas.
As pessoas que colaboraram com os materiais que levei, foram simplesmente geniais: professoras, Rosa Simões e Ilena Gonçalves, da escola secundária de Albufeira, Dra Luciana Camargo , Dra. Carla Pereira, a minha familia e alguns conhecidos. Acabei por levar o excesso de bagagem mais útil da minha vida. Ao contrário de muitas viagens que fiz, esta foi para trazer de volta sacos vazios, mas um coração cheio de vontade e ideias novas do que posso fazer para ajudar.
Um muito obrigada a todos os que ajudaram.
OBJECTIVOS DO PROJECTO
- Fazer chegar até ás escolas, material educacional, do qual precisam e outros bens importantes, para o seu desenvolvimento.
- Formar e ensinar a ser criativo, com o que se tem e com o que se doa, criando assim novos postos de trabalho.
- Recolher o material, doado por empresas ou particulares.
DAR O NOSSO MELHOR
Quando fazemos algo queremos fazê-lo o melhor possível.
Este é o príncipio do meu projecto, acente em 3 bases.
- Gostar do que se faz;
- Não prejudicar ninguém;
- Ser realmente útil.
IMPLEMENTAÇÃO DO PROJECTO
A associação designada por: “Homem com Futuro” é uma organização solidária e sem fins lucrativos que se regerá pelo estatuto e a legislação portuguesa em vigor.
A organização actuará no âmbito nacional e internacional sem vinculação política ou partidária ou religiosa e fundamentará as suas acções e decisões nos princípios que regem os Direitos Humanos, não admitindo qualquer tipo de discriminação com base nas diferenças e/ou deficiências.
Tem como finalidade democratizar o conceito e a prática de uma sociedade solidária por meio de acções, a serem implementadas em parceria com o estado e iniciativas privadas e sociedade civil.
SER ÚTIL E CRIATIVO
Ser solidário é importante, mas ensinar os pais das crianças a serem criativos, com o que se tem e com o material que é doado, é muito útil.
Muitas crianças levam os materiais escolares dentro de um saco de plástico, a existência de um simples estojo ou mochila é quase nula.
São coisas muito simples de se fazer, quando existe o material e nesse caso é necessário ser-se criativo.
Ao dar formação a alguns pais, e empregá-los, criam-se novos postos de trabalho, logo existe mais uma família com um salário assegurado.
Gota no Oceano
Ouvir que, o que se está a fazer é pouco, parece que é irrelevante, ou então não é, pois não estaria agora a referenciá-lo.
Lembra-nos a história do pequeno colibri que queria apagar o fogo da floresta com pequenas gotas. Se todos nós fizermos a nossa parte, será mais fácil.
"A força não provem da capacidade física, mas da vontade férrea." Mahatma Gandhi
Gandhi
Solidariedade
«...Contrariando o que se diz da face luminosa da solidariedade, as pessoas não parecem ser nem bondosas nem solidárias. Não sendo (claramente) cruéis, não são fraternas (não que isso exigisse que pensassem em nós, mas que imaginassem o que somos ou aquilo que sentimos, ao menos uma, vez).
Quando muito, as pessoas parecem ser muito mais solidárias com as coisas más do que com as boas. Isto é quando vencemos fazem por ignorar os nossos sucessos (embora, muitas vezes, os desvalorizem ou até os tentem destruir... quando nos tomam pelas costas). Nem nos premeiam com um abraço nem parecem estar alegres, se ficamos felizes. Mas sempre que nos debatemos com coisas más, recomendam que tenhamos perseverança e são solidárias... com a nossa dor. E sendo assim embrulhando em omissões e em maus-tratos a solidariedade, as pessoas não são bondosas.
Na verdade, não somos solidários com o que quer que seja se o lado luminoso e a nossa face oculta não forem solidárias, um com a outra...».
Texto de Eduardo Sá, retirado do livro "Chega-te a mim e deixa-te estar".
SERES RACIONAIS
Só quando o Homem olhar para o próximo como igual, é que a humanidade vai parar de se maltratar e tirar a liberdade ao outro, aí sim, terão a consciência que devem mudar de atitude.
Do meu diário de viagem
INDIFERENÇA
Acima de tudo o que mais me revolta é a indiferença.
Quando ouço alguém dizer que: eles vivem assim porque querem, fico atónita.
Este povo vive assim por estar tão oprimido e a pobreza em que muitos se encontram não lhes dá muitas alternativas, a falta de auto estima é notável. Não sabem como agir para melhorar mesmo os que têm formação ficam sem acção. Conformismo! Noto impotência e desorientação, expressa nos seus rostos. Senti-me por vezes sozinha ao querer mudar esta situação, para a qual é preciso muita ajuda a todos os níveis.
Muitas pessoas não tiveram opção de escolha, foi-lhes praticamente imposto ao nascer e é muito difícil quando não se tem os meios necessários e a informação certa para se mudar de vida. Mesmo deste lado de cá que se diz desenvolvido encontramos muitas pessoas com atitudes de conformismo, que não lutam pelos seus ideais e não sabem como agir em simples actos do dia-a-dia.
Acredito acima de tudo, nesta geração de crianças e jovens, que parecem muito atentos a quem os compreende e olha com vontade de ajudar.
1 COMEÇO
Ao conversar com o Ministro da educação de S. Tomé, Sr. Jorge Lopes Bom Jesus, disse-me que tem um projecto que está a ser implementado em algumas escolas, que consiste em responsabilizar um chefe de Associação de pais pela manutenção das escolas.
É um bom começo estimar o que se tem, e se o exemplo vier dos pais funciona como um espelho.
O acto de se forrar os livros, é um pequeno gesto que ajuda a mantê-los limpos e conservá-los. Visto que a oferta dos manuais escolares no primeiro ano é um acto único e feito com esforço é importante que se ensine as crianças a estimá-los. Para isso é preciso que os pais tenham essa consciência, vontade e material para o fazer.
Letra traduzida da música "OFFER " de Alanis Morissette
Oferecer
Quem, quem sou eu para entristecer?
Diante de minha família e sorte
Diante de meus amigos e minha casa
Quem, quem sou eu para me sentir sem vida?
Quem sou eu para me sentir esgotada?
Diante de minha saúde e meu dinheiro
E onde, aonde eu vou para me sentir bem?
Por que eu ainda procuro externamente?
Quando está claro que isso não funcionará
É minha virtude continuar quando não sou capaz?
E é meu trabalho ser extraordinariamente preocupada com os outros?
Minha generosidade me desabilitou por
esse meu senso de tarefa a oferecer
E por que, por que eu me sinto tão ingrata?
Eu que estou muito além de apenas sobreviver
Eu que vejo a vida como uma ostra
É minha virtude continuar quando não sou capaz?
E é meu trabalho ser extraordinariamente preocupada com os outros?
Minha generosidade me desabilitou por
esse meu senso de tarefa a oferecer
E como, como ouso descansar em minha glória
Como ouso ignorar uma mão estendida?
Como ouso ignorar os países de terceiro mundo?
É minha virtude continuar quando não sou capaz?
E é meu trabalho ser extraordinariamente preocupada com os outros?
Minha generosidade me desabilitou por
esse meu senso de tarefa a oferecer
Quem, quem sou eu para entristecer?
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